sexta-feira, 2 de maio de 2025

 

Os Mil Sonetos com Amor

Luis Carlos de Morais Junior

 

  

 

Soneto 1

 

Amor só é amor se não desiste

De si mesmo, como escreve Shakespeare.

Amar é leve sensação que insiste

Depois que a gente vai, mas não quer ir.

 

O amante fica alegre e fica triste,

Alterna sensações, sempre a sorrir

E a se ocupar, e em tudo quanto existe

Motivo encontra o amor pra prosseguir.

 

Se descrê, se duvida, se se entrega,

Não era amor, mas pura fantasia;

Pois o menino que faz mira cega

 

Nos corações humanos, e é seu guia,

Quando o acerta é pra sempre; e jamais nega

Esta verdade, quem amou um dia!!


 

Soneto 2

 

Como eu quero te ver, como desejo

Teu beijo, e em mim só cresce o desejar,

Caso eu te veja, ou mesmo se não vejo,

Anelo por tua boca de luar.

 

Toca em minh’alma um cyberrealejo

E eu fico imaginando sem parar

O doce do sabor que eu mais almejo

Como um nauta que anseia pelo mar

 

Que é o seu lar; o oceano encapelado

Ou bonançoso, onde sua embarcação

Se sente livre e forte, com o seu fado.

 

E eu ouço o tempo todo esta canção

Que és tu, meu sonho bom realizado,

O sol que nasce no meu coração.

  

 

Soneto 3

 

Oh minha amada eterna, todo dia

Em que eu lhe dou um poema meu pra ler

Você me fala assim: – Tal poesia

Pode bem conquistar qualquer mulher!

 

Fico feliz, mas sigo na porfia,

Fazendo versos pra lhe dar e ver

Se posso lhe ganhar, se a alegria

De ter você fará brilhar meu ser!

 

Querida, meu amor, entenda bem,

É só você que eu quero conquistar

E é só pra ver você sorrir que eu canto!

 

Pra ver você dizer-me assim: – Também

Amo você, Luís, eu sou seu par,

E desde que te vi, te quero tanto!

  

 

Soneto 4

 

Veio o menino, sorridente e belo,

Entrou pelo jardim, chegou-se à fonte,

Deitou ao chão suas armas; e eu, ao vê-lo,

Mudo fiquei, e olhei para o horizonte.

 

“Ele veio beber e descansar,

Não quer mais nada, recostou o arco

E as flechas, não está a procurar

Mais um peito que sirva de alvo e marco

 

A seus tiros certeiros de paixão”.

Isso eu pensei, tentando ganhar calma,

Enquanto ele soerguia a própria mão

 

De finos dedos claros, e com a palma

Estendida, acertou meu coração,

Fazendo então minha alma amar tua alma.

 

 

Soneto 5

 

Todos seres do mundo têm defeito

Ao lado de grandeza sem igual,

Caráter esse muito natural.

Ouso dizer até que o nosso jeito

 

Tão humano, de ser assim perfeito

E imperfeito, não tem nada de mal,

É mesmo o nosso doce e o nosso sal,

Faz parte da harmonia do sujeito.

 

Mas veja bem, meu bem, a imperfeição

É simples nota da canção, apenas,

Que toca, numa grande orquestração,

 

Com tantas outras notas, não pequenas,

As quais produzem nossa comunhão

Com o que há de humano em nós, nas nossas penas.

 

 

Soneto 6

 

Seis sonetos, o corpo todo aberto;

O Aleijadinho esculpia com a mão

Que ele não tinha; tinha amor, decerto...

Eu só escrevo com meu coração.

 

Eu fico longe, mas te sinto perto,

E choro sozinho na escuridão.

Durmo lembrando, e, então, quando desperto,

Prossigo sonhando com esta paixão

 

Que é como um lindo rio, cheio de araras,

Flamingos, íbis, e outras aves raras,

Revoando todas, em volta de nós.

 

E eu gosto assim. As noites são tão claras!

E, em sucessão, os dias bons nos mos-

Tram, querida, que não estamos sós. 

 


 

 

Soneto 7

 

Nagualismo? Não importa o que isso seja!

Minha religião é o universo...

Fluxo turbilhonante aonde adeja

A força clara e rútila do verso.

 

Chego a pensar que seja um pluriverso

Que ruge e ri, se harmoniza e troveja.

Está em si e além, é o verso e o inverso,

E então renasce, quando se deseja

 

Com desejo profundo e bem sincero.

Seu nome é Eros, mas tem qualquer nome

Porque é uma fera; urge, sente fome

 

E arde em fogo que nunca se consome.

É Ouroboros, e, com todo o esmero,

Ele me gera e (ao mesmo tempo) o gero.

 

 

 

Soneto 8

 

Poemas de amor não trazem novidade.

E a bem dizer, não significam nada

Ou quase nada. U’a prova de amizade,

O eterno choro prà mulher amada.

 

Uma nova metáfora é tentada,

Vários modos de proclamar saudade;

No mais, é sempre a mesma xaropada:

“O meu amor por ti é uma cidade...”

 

Mas, se há verdade nesta afirmação,

Minhas noites em claro têm abrigo,

E tanto voto meu não foi em vão.

 

Pois trago a sua voz sempre comigo,

E a imagem linda, da qual sou amigo,

E faço versos mil pra esta paixão. 

 

 

Soneto 9

 

Aceitar a tua falta

É achar tudo vazio,

Entender o riso falso,

Respirar um sonho vago;

 

A voz que dentro me fala

Me diz só que nada vale,

Que caído dentro da vala

Do sentir, tudo me falha;

 

Compreender que você

Por hora ainda não veio

E eu nada posso fazer,

 

Sentindo este amargo frio

Que me produz teu faltar,

É, quieto, vociferar.


 

 

Soneto 10

 

Tantos problemas, e eu aqui, mudo.

Não há o que falar pra mais ninguém,

Contar o que sinto não me faria bem

A não ser que fosse pra você.

 

Eu fico muito tempo sem te ver,

E isso me faz sentir a sua falta,

A minha alma do lado da sua alma.

É pra você que eu quero contar tudo.

 

Chave de ouro no nosso caso é cada

Vez que passeamos lado a lado;

Não temos nem a nossa pedra certa.

 

Mas mesmo assim, incerta,

Eu sei que próximos, ou longe, o tempo todo,

Estamos sempre perto.


 

Soneto 11

 

Call me a Beatle, honey, if you wish.

Sometimes I call you Faith to myself...

And who knows who is the bait who is the fish?

I know you’re the fairy that I asked to the elfs

And to the gnomes... Let’s take a walk across the forest!

Come here, and make me hear your sweet voice,

My beautiful girlfriend: just to be honest

With you, I wish you – that is my choice;

Or explaining better the choice of the own Nature

Who's made for me a woman with a so gentle gesture.

Think about it, nothing ventured, nothing gained,

(It makes me remember an old song) – call me selfish.

You, Faith, are for me the dearest girl and lady

And I desire to be your beloved man, if so you wish.

 


Soneto 12

 

Sueño en el aire de esta noche fría

Como un ave que vuela hasta su nido.

La sala es muy oscura y algún sonido

Tiembla el barrio, mientras me escalofría.

 

Medio a toda la fuerza de este mundo,

Sencillo chico, un hombre solamente,

Camino por la calle, entre la gente,

Tentando ser feliz, terno y jocundo.

 

Hasta que te encontrara, yo hablaba

De muchas cosas, casi nada oía,

Y aún cualquier muchacha me encantaba...

 

Pero ahora, que tengo esta valía

Que es conocerte, mi dueña y mi esclava,

¡Siento que hacia mi rompe otro día!

 

 

Soneto 13

 

O próprio sol não dura mais que um dia,

E o universo, que nasceu no Big Bang,

Caminha resoluto prà entropia,

Afirma a Física, essa espécie, exangue

 

E dessorada, de alta poesia.

O homem que crê, pela obra dá seu sangue.

Ah, de que adianta usar toda a valia,

Ser poeta ou ser pintor, tal qual Chen Fang?

 

Tudo na vida passa, tudo muda...

Meus versos e toda a divina graça

Deste amor que começa, genial.

 

Mas vejo que por bela, e por desnuda,

Esta verdade muda também passa,

E ficará pra sempre o amor real!

 

 

Soneto 14

 

A coisa mais anticristo que eu conheço

São as igrejas cristãs, sem exceção.

Nada mais demoníaco que um homem

Se fingindo de bom, sem amor nem perdão.

 

Não pensam em Jesus como era realmente.

Se o vissem face a face, o que falariam?

Iriam zombar dele e chamá-lo de maluco, no mínimo.

 

Jesus pediu de nós o minimáximo:

O amor, a tolerância e o carinho

Com Deus, os homens e todos os seres vivos.

 

Antes de comprar o modo ocidental

Vire a esquina e olhe atentamente.

E pense, com amor, como fizeram Benítez,

Lawrence, Nietzsche, Gibran, Saramago e Kazantzakis.

 

Soneto 15

 

Você tem tudo o que eu desejo mais a lábia,

E soube me ganhar de cara, e pra valer.

Pra me fazer feliz ou não você é sábia,

Como também em ser contente e ter prazer.

 

Você me faz acreditar em tudo e ser

O mais tranquilo e filosófico entre os sábios;

O paraíso está no seu bico do esquer-

Do seio, e toda alegria é roçar seus lábios.

 

Posso ficar fazendo rimas como um louco,

Sem nem saber direito como nem por quê.

Assim as horas vão rodando devagar

 

E vão passando sem voltar, e mais um pouco

De mim se aplaca nesta espera por você

Que sabe bem demais onde é mesmo o seu lar.

 

 

Soneto 16

 

O que é humano e o que é divino

Em meio a nossos atos e a nossos planos

E o nosso modo de vida?

 

Somos uns ciganos, isso é o que somos,

Somos cartomantes, somos bailarinos,

Mas dizemos que a penas raciocinamos.

 

Ser assim é ótimo, aqui não vai queixa,

Mas pra quê ficar desconfiando de nós mesmos?

Tantos eu já vi tão a esmo, ao final do mês

Ou do milênio, cofiando a barba no queixo.

 

Há tendência de nós procurarmos os polos

Norte e sul, bom e mal, santidade e pecado

Et cetera. Mas sabemos ser bem mais impecável

Buscar sempre o caminho do meio dos olhos.

 

 

Soneto 17

 

Renasceste em meus braços multiforme:

Na terra um sol engendrando universos...

Em marte a nossa fonte fome enorme,

Por mundos planetários ou submersos.

 

No fundo de oceanos mais diversos,

Por eras ou segundos, desconforme,

Nasceu o nosso amor de fogo e versos

Que fita sem cessar, fita e não dorme.

 

Na paisagem caótica da esfera

Primeva, mil relâmpagos dardejam

E a chuva cai constante a par do sol;

 

É neste aqui e agora que o arrebol

Do sonho de dois deuses que se beijam

Faz do amor o princípio da nova era.

 

 

Soneto 18

 

Bicarbonato de potássio por instantes

E muitos livros muitos vidros nas estantes

Base carbono e/ou também base silício

De qualquer forma o pensamento é um artifício

O relatório escrevo quase sem paixão

Por toda parte avião oculto um furacão

É bem melhor cheirar a flor que abacaxi

Como uma concha e aquela anêmona que vi

Do que perder-se pelo longo labirinto

Sentindo tanto e sem saber como é que sinto

É hora agora e nada é público e notório

O mundo inteiro é mesmo o meu laboratório

Tetracloreto de carbono e cafeína

Minha menina dança dentro e a outra menina

 

Soneto 19

 

Ardo de inveja dele, e assim, eu ardo

Por invejar o amo e senhor do dia

Em que aliviada perderás o fardo

Chamado então pureza, ou poesia.

 

Quisera eu que fosse eu teu anti-bardo

O dono pleno de teu meio-dia

– Pensando neste, ciumento eu ardo

– Pensando em ti, me toma a gelosia.

 

Casasses tu comigo!!! Na janela,

Poria a rótula por proteção

Contra olhares ciumentos, invejosos...

 

À porta vossa – ah!, vou passar por ela

Pra comungar, ao menos com a visão,

Com o amor sem gelosias dos ditosos.

 

 

Soneto 20

 

Já aconteceu bastante de eu ver muita

Moça bonita assim, morena e loura.

Mas... se olho os olhos teus eu fico mudo:

O teu olhar é um sol que tudo doura,

 

É uma construção magnífica de ouro,

É a primavera que colore o mundo,

É a alegria que nasce bem no fundo

E se abre em lindas asas sobre nós...

 

Quero dizer que sim, eu quero ir fundo,

Eu sei que tudo tem mesmo seus nós,

E tanto homem de paz vira iracundo

 

Quando esquece da força dessa luz

Que há em nós, querida, no profundo

Amor que sempre vence, e que seduz.

 

 

Soneto 21

 

Anja no nome, angélica na cara,

E eu posso ver seus olhos e a sua alma

E eles são meigos, mas ferozes, cara,

E ela é clara, bela e fera na palma

 

Da mão do furacão, com toda a calma

E o tambor da canção que soa rara,

Sempre no céu do coração, com a alma

Da cara ao pé, e eu quero vê-la, para

 

Poder dizer que a sintetizo, e vejo

Essa sua boca em fotos do amanhã

E em tudo que eu não digo, mas desejo

 

Dizer para você, vulcão: cunhã

E mãe, mescladas num ser, cujo beijo

É doce aroma e é sal: sol da manhã 

 

 

Soneto 22

 

Então falou você: – Não sei dizer

O que eu farei, quando você chegar

Perto de mim, pertinho assim, e ler

Seus versos que não param de pulsar.

 

Porém não explicou, se o seu prazer

De receber poesia sem parar

Despertaria desejo no seu ser,

Se ao os ouvir, quereria me beijar,

 

Ou seria o oposto, a timidez

Da sereia que esconde no mais fundo

Do oceano, o desejo que a domina.

 

Então, fico esperando a minha vez

De ver você me ouvindo, com profundo

Prazer em ter pra mim essa menina.

 

Soneto 23

 

venha me beijar doce vampira

à luz do luar ou do sol ou do abajur

eu mentalizo pra você venha

e você ouve a minha voz amorosa

 

na sua mente brilhosa

radiosa como a criação de um verso

ou de megassupercosmos num grão

assim é o desejo

 

assim é a paixão

assim é o amor

também

 

garota, se eu falei vampira, é porque piro

quando penso na nossa alegria-flor

que aquece a luz do sim do sol do amor

 

 Soneto 24

 

Como se já não fosse dose

Tanto combate ao poeta e pensador

Original que nasceu aqui e é barrado,

Porque não querem escrita à vera no país,

 

Ainda tem a criptonita

Que é algo assim de várias coisas

E cores magníficas como se fosse

A fase da cauda do pavão

 

Aquela que vem depois de tanto esforço

E recompensa nosso denodo, antes

Da Pedra Filosofal.

 

Mas a criptonita é bonita e muito esperta

Me deixa assim na cama e carma, o que fazer?

Você já sabe, estou falando de você

 

 

Soneto 25

 

Desde o início eu registrei e assimilei seu não

O impossível é um hábito nesse filme que faço

Mas ver seu rosto ouvir sua voz falar contigo

É como uma lenda uma história mitológica de amor

 

Então eu continuo puxando conversa com você

Como se fosse uma amiga uma senhora um bebê

Uma menina e uma moça que conheci na festa

E essa festa dura a vida inteira

 

Mesmo que você não venha ser feliz

No beijo de vulcão e de doce de leite

Que eu guardo na minha boca pra você

 

Ainda que você nem saiba que pra ser feliz

A gente precisa confiar no outro e mais na gente

E mais ainda nas coisas boas e legais que a gente sente




Soneto 26

 

Se comover de verdade, moça

Você vai saber o que é

Quando confiar um pouco em mim

E deixar eu pegar na sua mão

 

Enquanto andamos pela praia

Assim como quem não quer nada

Enquanto comemos coquetel de camarão

E bebemos chá de hortelã musse de limão

 

Eu visualizo coisas simples com você

Porque quando eu imagino um abraço apertado

Pela noite sem fim do meu querer

 

Aí eu entro em outra dimensão

Uma dimensão em que as coisas valem mais

E sua boca procura pela minha com vontade

 

Soneto 27

 

Droga que coisa eu sou um homem adulto

Por que essa coisa de bebê na fase oral

Você fala comigo pronto: tchan!!

Mais uma noite sem dormir pensando

 

Em você, rolando nossas falas como pedras

Na boca de um demóstenes do amor

Que eu não sou, eu sou o puro amor,

Eu sou amor quando o assunto é você

 

Olhando de novo e de novo as suas fotos

Num moto perpétuo que talvez seja desejo

Talvez seja paixão talvez o beijo e a mão

 

Que quero tanto dar pra você, ou talvez

Seja o amor, mas me diga, moça linda que me invade,

Se for amor isso que sinto, como vamos saber?

 

 

Soneto 28

 

pra que serve a arte uma sensação

surpresa boa depois acostuma

pra que serve o amor

ou melhor

 

como o amor se arruma

nessa coisa toda??

eu não sei  meu bem

mas o que eu não sei não chega aos pés

 

dos beijos que se geram nos meus lábios

quando penso na sua boca

e nos seus pés

 

mas o prazer incerto

vive igual um inseto

por dentro do verso

 

Soneto 29

 

A força que me faz ficar sonhando

Acordado, na noite, com você,

É a mesma que nos vem à mente, quando

Amamos o que se ouve, o que se vê;

Seja esse item árduo, ou terno e brando,

Aquilo que cativa no seu ser

É a pura luz do amor, que está chamando:

Assim você me chama, sem querer.

No entanto, a chama nítida que sinto

Nos seus lábios, seus olhos, sua mente,

Talvez seja hidromel, talvez absinto.

Como saber? O nosso beijo é urgente,

E eu ando, percorrendo o labirinto

Do seu coração lindo, sua semente.

 

 

 

Soneto 30

 

Por que você fez assim comigo?

Você quis me entristecer...

Mostrou-me as suas pernas de veludo e o doce abrigo

Do seu ser,

 

Pra eu pensar que era meu o seu umbigo,

Pra eu querer olhar você e aí crescer

O meu amor, que é um sinal vermelho de perigo

E é tudo que pode no planeta alvorecer.

 

E então você me deu seu choro e riu comigo

E eu lambi as suas lágrimas e quis ninar você;

Mas depois você me disse: “Meu amigo,

 

Eu jamais pensaria em te querer.”

E eu fiquei furioso ali na esquina... e agora não consigo

Deixar de amar a sua fonte inebriante de prazer!

 

 

 

Soneto 31

 

Você inteira, sem censura, séria

E ao mesmo tempo ávida bacante

Seus seios, minhas mãos, a noite inteira,

Sereia e marinheiro, amada e amante

 

Eu quero tudo que você quiser

Me dar, cada suspiro, cada afago,

No mar da sua boca mergulhar,

Sentindo o fogo doce dos seus lábios

 

Na minha língua o sal do seu prazer,

Na minha mão a flor que desabrocha

A pele se arrepia e você quer

 

Eu sei que quer, porque quem ama gosta

De ficar perto assim, homem e mulher,

A se deliciar, a noite a fora

 

  

Soneto 32

 

Do núcleo do meu ser nasce o desejo

Que confesso a você, e é furacão

E ao mesmo tempo brisa amena. Vejo,

Em tudo que você faz, a atenção

 

Que Eros dedica ao nosso estranho sim,

Com seu jeito infantil, e soberano.

Olha o menino rei, fala pra mim

Se é justo seu desdém, seu desengano,

 

Diante da beleza desse encontro.

Do que eu estou falando, me pergunta

Você; sem compreender por que persigo

 

Esse afeto sutil, controvertido.

E a sua indagação vem sempre junta

Ao desejo que sinto, que sentimos.

 

 

Soneto 33

 

Nas tantas horas que passamos juntos

Eu vi o tempo desdobrar-se inteiro,

Qual se a flecha se tornasse uma esfera,

Ou virasse várias setas em uma

 

E apontasse pra direções complexas

Que englobam o que eu sou serei e fui,

Como um rio que flua pro futuro

Mas tal futuro é mítico e poético,

 

Fractal futuro múltiplo e diverso,

Do qual todo passado é só um ponto,

Pois, tudo que sabemos sendo um conto

 

Da infinda biblioteca do universo,

Que eu vi no seu olhar naquele instante

Que te fez minha, eterna, amada, amante.

 

 

Soneto 34

 

Mas, como sempre dura, é infinito

Este amor, que é eterna duração.

Ele me faz ficar insone e aflito,

E, mesmo assim, lhe dou sempre razão.

 

Porque é amor e é meu e é bonito

E é mais potente do que o sim e o não

E está no meu silêncio e no meu grito

E mora dentro do meu coração.

 

E então só fico atento ao meu amor;

Por isso nada importa, e eu só recordo

De pensar nela, seja como for.

 

Desde a hora em que durmo, e quando acordo,

Os seus olhos me olham com uma cor

Que eu só vi nos seus olhos, e que adoro.

  

  

Soneto 35

 

Seu amor ilumina minha lida

De uma forma que eu nunca imaginei

Que fosse acontecer e agora eu sei

O que é o amor que dura toda a vida

 

E o que é o homem sentir-se como um rei

E ter na realidade amanhecida

A máxima alegria que era tida

Como um prazer restrito ao que sonhei

 

Tudo é real e mais nada é igual

Ao que era antes da realização

Desse lindo desejo de menino

 

Que sabe ser feliz o seu destino

E sente o paraíso à sua mão

E vibra com este amor transtemporal 


 

Soneto 36

 

Um soneto

É um som

No meio

Do caos

 

Do barulho

Da cidade

E da mente

Dos normais

 

Um poema

Que fala

O fora

 

Traz pra perto

O universo

Agora

 

 

Soneto 37

 

The nightingale calls the lark

And I see and hear Doris Day

Chanting in the classical movie

“The man who knew too much”:

“Today you're crazier than you use to”

I hearken you say, but I think: “No way!’

I remain wanting to chat with you

Holding you tight, I always want you

Must I wake up now, or should I dream?

Is it the light of dawn, or still dark stream?

Is it only the nightingale we listen

Who keeps moon and sun apart?

Or is it the lark, the herald of the morn,

Who sings in my eyes and in my heart?

 

 

 

 

Soneto 38

 

Soneto do Amor total

 

O amor é fogo que arde e que se vê,

Anima tudo e faz o mundo inteiro.

Aparece na forma de um bebê,

Depois cresce, se apaixona e fica arteiro.

 

O meu amor por você é infinito:

É um mundo onde eu entrei quando te vi;

No qual quero morar, pra ser bendito

E super prazeroso estar aqui.

 

Meu amor por você é minha vida.

Foi assim, desde que te conheci.

Toda e cada hora agora é mais sentida,

 

Me aproxima do amor que sinto em ti.

E é imortal, posto que sempre dura,

Pois vem pra nós da chama eterna e pura.

 

 

Soneto 39

 

Revoluções
 
Este poema se chama Games, porque fala das formas
Como os seres humanos entretecem relações familiares,
Sociais e de trabalho, nunca se atendo às normas
Totalmente, mas, parcialmente, sim – e esse é o jogo.
 
O qual é falseado, quero dizer, tem vários níveis de performance;
E mesmo o apocalipse programático que o mundo experimenta
É um megajogo: por exemplo, como pode uma coisa ser
Inteligência, se é artificial? Como pode ser experimento
 
A tal jogada louca, na qual o mesmo povo é o objeto
E o sujeito? O cientista e o projeto? O domador e o leão?
Tal peleja parece nazista, mesmo até quando é feita
 
Por pessoas comuns, de bom senso, com a melhor das intenções.
Aqui entram mais dois versos, para poder ser um soneto,
Este texto que escrevo, e que quer produzir a colheita de neossoluções.

 


 

Oito sonetos de Shakespeare traduzidos por mim:

 

 

Sonnet 7

 

Vê! No Oriente, quando a luz graciosa                  

Ergue a cabeça em chamas, cada olhar

Curva-se à ígnea visão, que é sacra e nova,

Louvando-lhe a realeza, a admirar;

Subindo a íngreme e celestial colina,

Parece forte e jovem, e é madura;

E, ao mesmo tempo, a admiração perdura,

Enquanto ela, dourada, peregrina:

Mas, quando em alto tom, carro gemente,

Como se fosse idosa, se retira,

Olhos antes fieis, já se desviam,

Não querem mais mirar o céu poente;

Também tu, ao decair teu apogeu,

Serás, se não tiveres filho teu.

 

 

 

Sonnet 8

 

Se a música é pra ouvir, então... por que a ouves triste?

Doces não se combatem, e a alegria se deleita com a alegria.

Por que tu amas aquilo que te desagrada,

Ou então recebes com prazer o que só te aborrece?

Se os sons harmônicos, no mesmo tom afinados

E bem unidos, ofendem teus ouvidos,

Docemente eles te repreendem, pois confundes (captas)

Como partes discretas o que em conjunto tu suportarias.

Repara como as cordas, casadas, cônjuge uma da outra,

Se tocam e vibram juntas, em uma grande harmonia,

Como se fossem pai e filho e mãe felizes,

Tocando em uníssono a agradável melodia:

Cuja música sem letra fala mais que as palavras,

Cantando para ti, que: “Tu, sozinho, nada provas”.

 

  

Sonnet 20

 

Face fêmea tens tu, pela Natura feita

Pintura, senhor/dama da minha paixão;

Coração brando de mulher, mas não afeita

À inconstância vã, feminina afetação:

Olhos que brilham mais que os delas, sem mentir,

Tornando em ouro cada coisa que quiseres;

Controlas dons e tons, tens másculo matiz,

Dos varões roubas o olhar, e a alma das mulheres.

E para ser mulher é que tu foste criada;

A própria Natura te amou ao te forjar,

Eu fui junto também, não pude fazer nada,

E o que ela quer eu quis, sem nada acrescentar.

Se pro prazer da mulher foi que ela te criou,

O meu é o teu amor; seu tesouro é te amar.

 

 

Sonnet 21

 

Então, não, não se dá comigo como com aquela

Musa que se autoinspira em fazer verso-beleza,

Pra quem o próprio céu é só mais um enfeite

E o bem mera expressão do quão bem se apresenta,

Se apresentando em pares na comparação vaidosa

Com o sol e a lua, e as preciosas joias da terra e do mar,

Com as primeiras flores da primavera, e com todas as coisas

Raras que o ar celeste em sua enorme abóbada abarca.

Oh! Permita-se ser verdadeiro no amor e na poesia,

E então confia em mim, o meu amor é tão puro,

Como da mãe com seu filho, mesmo sem ter tanto brilho

Quantas as velas de ouro fixadas no ar celestial.

Deixe meus versos falarem mais do se pode entender;

Não faço comercial do que não posso oferecer.

 

 

 

Sonnet 33

 

Muitas manhãs gloriosas eu já vi

Cobrindo os montes com soberbo olhar,

Áurea face a beijar verde capim,

Alquimia divina a transmutar

N’ouro rios sem cor; sem permitir

No firmamento nuvem baixo astral,

Nem deserdando o mundo a se esvair,

Rosto que vai pro rastro ocidental:

De um modo igual meu sol brilhou pra mim,

Triunfo esplendoroso em minha testa;

Porém, uma hora só, depois eu vi,

A nuvem que o escondeu, muito depressa.

Mas nem por isso o amor que sinto encerra;

Se foge o sol do céu, fá-lo os da terra.

 

 

Soneto 91

 

A glória parcial de um nascimento,

Da perícia, riqueza ou corpo forte,

As roupas mais cotadas do momento,

Galgos, falcões, cavalos de alto porte,

Podem ser todo o encanto de uma vida

P’ra alguém que aí empenhe o seu cuidado;

Porém, não podem ser minha medida;

Algo melhor que tudo hei encontrado.

O teu amor p’ra mim é muito mais

Que um nascimento nobre, ou que o dinheiro,

Mais deleitoso que esportes frugais;

E tendo a ti, me gabo prazenteiro

Infeliz nisso só, que poderias,

Levar tudo e deixar-me as mãos vazias.


 

Soneto 145

 

Os lábios feitos por Amor, os dela,

Soaram o som que disse assim: “Odeio”,

E eu desfaleci à voz aquela...

Mas imediatamente o perdão veio

Quando ela viu meu infeliz estado,

Censurou sua língua, que, sempre branda,

Gentil decreto então me fez ser dado;

E arremedou sua frase nefanda;

“Odeio”, ela alterou com um complemento,

Que a seguiu, como segue o dia terno

À noite, que tal qual demo agourento,

Do céu desprende e retorna ao inferno;

“Odeio”, com ódio ela falou, e aí...

Salvou-me a vida, ao dizer: “não a ti”.

 


 

Soneto 154

 

Eros, o Deus do Amor, menino, adormeceu,

Largando ao lado a flecha inflama-corações;

Vieram as ninfas virgens, vendo ali o sono seu,

E uma pegou o dardo-chama, que legiões

Fez ficarem amorosos e sinceros.

E assim dormindo foi o General do Quente

Desejo desarmado. Ela, a seta, então, de Eros,

Mergulhou na nascente, e a frecha a fez ardente,

Encheu de fogo a fonte, e, ao invés de se apagar,

Criou balsâmica água ígnea, que serve de cura

Pra todos que sofrem da loucura de amar.

Servo de minha Dama, lá fui, à procura

Do universal remédio, e fiquei sabedor:

O fogo esquenta a água, a água não esfria o Amor.

 

 

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