Os Mil Sonetos com Amor
Luis Carlos de Morais Junior
Soneto
1
Amor
só é amor se não desiste
De
si mesmo, como escreve Shakespeare.
Amar
é leve sensação que insiste
Depois
que a gente vai, mas não quer ir.
O
amante fica alegre e fica triste,
Alterna
sensações, sempre a sorrir
E
a se ocupar, e em tudo quanto existe
Motivo
encontra o amor pra prosseguir.
Se
descrê, se duvida, se se entrega,
Não
era amor, mas pura fantasia;
Pois
o menino que faz mira cega
Nos
corações humanos, e é seu guia,
Quando
o acerta é pra sempre; e jamais nega
Esta
verdade, quem amou um dia!!
Soneto
2
Como
eu quero te ver, como desejo
Teu
beijo, e em mim só cresce o desejar,
Caso
eu te veja, ou mesmo se não vejo,
Anelo
por tua boca de luar.
Toca
em minh’alma um cyberrealejo
E
eu fico imaginando sem parar
O
doce do sabor que eu mais almejo
Como
um nauta que anseia pelo mar
Que
é o seu lar; o oceano encapelado
Ou
bonançoso, onde sua embarcação
Se
sente livre e forte, com o seu fado.
E
eu ouço o tempo todo esta canção
Que
és tu, meu sonho bom realizado,
O
sol que nasce no meu coração.
Soneto
3
Oh
minha amada eterna, todo dia
Em
que eu lhe dou um poema meu pra ler
Você
me fala assim: – Tal poesia
Pode
bem conquistar qualquer mulher!
Fico
feliz, mas sigo na porfia,
Fazendo
versos pra lhe dar e ver
Se
posso lhe ganhar, se a alegria
De
ter você fará brilhar meu ser!
Querida,
meu amor, entenda bem,
É
só você que eu quero conquistar
E
é só pra ver você sorrir que eu canto!
Pra
ver você dizer-me assim: – Também
Amo
você, Luís, eu sou seu par,
E
desde que te vi, te quero tanto!
Soneto
4
Veio
o menino, sorridente e belo,
Entrou
pelo jardim, chegou-se à fonte,
Deitou
ao chão suas armas; e eu, ao vê-lo,
Mudo
fiquei, e olhei para o horizonte.
“Ele
veio beber e descansar,
Não
quer mais nada, recostou o arco
E
as flechas, não está a procurar
Mais
um peito que sirva de alvo e marco
A
seus tiros certeiros de paixão”.
Isso
eu pensei, tentando ganhar calma,
Enquanto
ele soerguia a própria mão
De
finos dedos claros, e com a palma
Estendida,
acertou meu coração,
Fazendo
então minha alma amar tua alma.
Soneto
5
Todos
seres do mundo têm defeito
Ao
lado de grandeza sem igual,
Caráter
esse muito natural.
Ouso
dizer até que o nosso jeito
Tão
humano, de ser assim perfeito
E
imperfeito, não tem nada de mal,
É
mesmo o nosso doce e o nosso sal,
Faz
parte da harmonia do sujeito.
Mas
veja bem, meu bem, a imperfeição
É
simples nota da canção, apenas,
Que
toca, numa grande orquestração,
Com
tantas outras notas, não pequenas,
As
quais produzem nossa comunhão
Com
o que há de humano em nós, nas nossas penas.
Soneto
6
Seis
sonetos, o corpo todo aberto;
O
Aleijadinho esculpia com a mão
Que
ele não tinha; tinha amor, decerto...
Eu
só escrevo com meu coração.
Eu
fico longe, mas te sinto perto,
E
choro sozinho na escuridão.
Durmo
lembrando, e, então, quando desperto,
Prossigo
sonhando com esta paixão
Que
é como um lindo rio, cheio de araras,
Flamingos,
íbis, e outras aves raras,
Revoando
todas, em volta de nós.
E
eu gosto assim. As noites são tão claras!
E,
em sucessão, os dias bons nos mos-
Tram,
querida, que não estamos sós.
Soneto
7
Nagualismo?
Não importa o que isso seja!
Minha
religião é o universo...
Fluxo
turbilhonante aonde adeja
A
força clara e rútila do verso.
Chego
a pensar que seja um pluriverso
Que
ruge e ri, se harmoniza e troveja.
Está
em si e além, é o verso e o inverso,
E
então renasce, quando se deseja
Com
desejo profundo e bem sincero.
Seu
nome é Eros, mas tem qualquer nome
Porque
é uma fera; urge, sente fome
E
arde em fogo que nunca se consome.
É
Ouroboros, e, com todo o esmero,
Ele
me gera e (ao mesmo tempo) o gero.
Soneto
8
Poemas
de amor não trazem novidade.
E
a bem dizer, não significam nada
Ou
quase nada. U’a prova de amizade,
O
eterno choro prà mulher amada.
Uma
nova metáfora é tentada,
Vários
modos de proclamar saudade;
No
mais, é sempre a mesma xaropada:
“O
meu amor por ti é uma cidade...”
Mas,
se há verdade nesta afirmação,
Minhas
noites em claro têm abrigo,
E
tanto voto meu não foi em vão.
Pois
trago a sua voz sempre comigo,
E
a imagem linda, da qual sou amigo,
E
faço versos mil pra esta paixão.
Soneto
9
Aceitar
a tua falta
É
achar tudo vazio,
Entender
o riso falso,
Respirar
um sonho vago;
A
voz que dentro me fala
Me
diz só que nada vale,
Que
caído dentro da vala
Do
sentir, tudo me falha;
Compreender
que você
Por
hora ainda não veio
E
eu nada posso fazer,
Sentindo
este amargo frio
Que
me produz teu faltar,
É,
quieto, vociferar.
Soneto
10
Tantos
problemas, e eu aqui, mudo.
Não
há o que falar pra mais ninguém,
Contar
o que sinto não me faria bem
A
não ser que fosse pra você.
Eu
fico muito tempo sem te ver,
E
isso me faz sentir a sua falta,
A
minha alma do lado da sua alma.
É
pra você que eu quero contar tudo.
Chave
de ouro no nosso caso é cada
Vez
que passeamos lado a lado;
Não
temos nem a nossa pedra certa.
Mas
mesmo assim, incerta,
Eu
sei que próximos, ou longe, o tempo todo,
Estamos
sempre perto.
Soneto 11
Call me a Beatle, honey, if you wish.
Sometimes I call you Faith to myself...
And who knows who is the bait who is the fish?
I know you’re the fairy that I asked to the elfs
And to the gnomes... Let’s take a walk across the
forest!
Come here, and make me hear your sweet voice,
My beautiful girlfriend: just to be honest
With you, I wish you – that is my choice;
Or explaining better the choice of the own Nature
Who's made for me a woman with a so gentle gesture.
Think about it, nothing ventured, nothing gained,
(It makes me remember an old song) – call me selfish.
You, Faith, are for me the dearest girl and lady
And I desire to be your beloved man, if so you wish.
Soneto
12
Sueño en el aire de esta noche fría
Como un ave que vuela hasta su nido.
La sala es muy oscura y algún sonido
Tiembla el barrio, mientras me escalofría.
Medio a toda la fuerza de este mundo,
Sencillo chico, un hombre solamente,
Camino por la calle, entre la gente,
Tentando ser feliz, terno y jocundo.
Hasta que te encontrara, yo hablaba
De muchas cosas, casi nada oía,
Y aún cualquier muchacha me encantaba...
Pero ahora, que tengo esta valía
Que es conocerte, mi dueña y mi esclava,
¡Siento que hacia mi rompe otro día!
Soneto
13
O
próprio sol não dura mais que um dia,
E
o universo, que nasceu no Big Bang,
Caminha
resoluto prà entropia,
Afirma
a Física, essa espécie, exangue
E
dessorada, de alta poesia.
O
homem que crê, pela obra dá seu sangue.
Ah,
de que adianta usar toda a valia,
Ser
poeta ou ser pintor, tal qual Chen Fang?
Tudo
na vida passa, tudo muda...
Meus
versos e toda a divina graça
Deste
amor que começa, genial.
Mas
vejo que por bela, e por desnuda,
Esta
verdade muda também passa,
E
ficará pra sempre o amor real!
Soneto
14
A
coisa mais anticristo que eu conheço
São
as igrejas cristãs, sem exceção.
Nada
mais demoníaco que um homem
Se
fingindo de bom, sem amor nem perdão.
Não
pensam em Jesus como era realmente.
Se
o vissem face a face, o que falariam?
Iriam
zombar dele e chamá-lo de maluco, no mínimo.
Jesus
pediu de nós o minimáximo:
O
amor, a tolerância e o carinho
Com
Deus, os homens e todos os seres vivos.
Antes
de comprar o modo ocidental
Vire
a esquina e olhe atentamente.
E
pense, com amor, como fizeram Benítez,
Lawrence,
Nietzsche, Gibran, Saramago e Kazantzakis.
Soneto
15
Você
tem tudo o que eu desejo mais a lábia,
E
soube me ganhar de cara, e pra valer.
Pra
me fazer feliz ou não você é sábia,
Como
também em ser contente e ter prazer.
Você
me faz acreditar em tudo e ser
O
mais tranquilo e filosófico entre os sábios;
O
paraíso está no seu bico do esquer-
Do
seio, e toda alegria é roçar seus lábios.
Posso
ficar fazendo rimas como um louco,
Sem
nem saber direito como nem por quê.
Assim
as horas vão rodando devagar
E
vão passando sem voltar, e mais um pouco
De
mim se aplaca nesta espera por você
Que
sabe bem demais onde é mesmo o seu lar.
Soneto
16
O
que é humano e o que é divino
Em
meio a nossos atos e a nossos planos
E
o nosso modo de vida?
Somos
uns ciganos, isso é o que somos,
Somos
cartomantes, somos bailarinos,
Mas
dizemos que a penas raciocinamos.
Ser
assim é ótimo, aqui não vai queixa,
Mas
pra quê ficar desconfiando de nós mesmos?
Tantos
eu já vi tão a esmo, ao final do mês
Ou
do milênio, cofiando a barba no queixo.
Há
tendência de nós procurarmos os polos
Norte
e sul, bom e mal, santidade e pecado
Et
cetera. Mas sabemos ser bem mais impecável
Buscar
sempre o caminho do meio dos olhos.
Soneto
17
Renasceste
em meus braços multiforme:
Na
terra um sol engendrando universos...
Em
marte a nossa fonte fome enorme,
Por
mundos planetários ou submersos.
No
fundo de oceanos mais diversos,
Por
eras ou segundos, desconforme,
Nasceu
o nosso amor de fogo e versos
Que
fita sem cessar, fita e não dorme.
Na
paisagem caótica da esfera
Primeva,
mil relâmpagos dardejam
E
a chuva cai constante a par do sol;
É
neste aqui e agora que o arrebol
Do
sonho de dois deuses que se beijam
Faz
do amor o princípio da nova era.
Soneto
18
Bicarbonato
de potássio por instantes
E
muitos livros muitos vidros nas estantes
Base
carbono e/ou também base silício
De
qualquer forma o pensamento é um artifício
O
relatório escrevo quase sem paixão
Por
toda parte avião oculto um furacão
É
bem melhor cheirar a flor que abacaxi
Como
uma concha e aquela anêmona que vi
Do
que perder-se pelo longo labirinto
Sentindo
tanto e sem saber como é que sinto
É
hora agora e nada é público e notório
O
mundo inteiro é mesmo o meu laboratório
Tetracloreto
de carbono e cafeína
Minha
menina dança dentro e a outra menina
Soneto
19
Ardo
de inveja dele, e assim, eu ardo
Por
invejar o amo e senhor do dia
Em
que aliviada perderás o fardo
Chamado
então pureza, ou poesia.
Quisera
eu que fosse eu teu anti-bardo
O
dono pleno de teu meio-dia
–
Pensando neste, ciumento eu ardo
–
Pensando em ti, me toma a gelosia.
Casasses
tu comigo!!! Na janela,
Poria
a rótula por proteção
Contra
olhares ciumentos, invejosos...
À
porta vossa – ah!, vou passar por ela
Pra
comungar, ao menos com a visão,
Com
o amor sem gelosias dos ditosos.
Soneto
20
Já
aconteceu bastante de eu ver muita
Moça
bonita assim, morena e loura.
Mas...
se olho os olhos teus eu fico mudo:
O
teu olhar é um sol que tudo doura,
É
uma construção magnífica de ouro,
É
a primavera que colore o mundo,
É
a alegria que nasce bem no fundo
E
se abre em lindas asas sobre nós...
Quero
dizer que sim, eu quero ir fundo,
Eu
sei que tudo tem mesmo seus nós,
E
tanto homem de paz vira iracundo
Quando
esquece da força dessa luz
Que
há em nós, querida, no profundo
Amor
que sempre vence, e que seduz.
Soneto
21
Anja
no nome, angélica na cara,
E
eu posso ver seus olhos e a sua alma
E
eles são meigos, mas ferozes, cara,
E
ela é clara, bela e fera na palma
Da
mão do furacão, com toda a calma
E
o tambor da canção que soa rara,
Sempre
no céu do coração, com a alma
Da
cara ao pé, e eu quero vê-la, para
Poder
dizer que a sintetizo, e vejo
Essa
sua boca em fotos do amanhã
E
em tudo que eu não digo, mas desejo
Dizer
para você, vulcão: cunhã
E
mãe, mescladas num ser, cujo beijo
É
doce aroma e é sal: sol da manhã
Soneto
22
Então
falou você: – Não sei dizer
O
que eu farei, quando você chegar
Perto
de mim, pertinho assim, e ler
Seus
versos que não param de pulsar.
Porém
não explicou, se o seu prazer
De
receber poesia sem parar
Despertaria
desejo no seu ser,
Se
ao os ouvir, quereria me beijar,
Ou
seria o oposto, a timidez
Da
sereia que esconde no mais fundo
Do
oceano, o desejo que a domina.
Então,
fico esperando a minha vez
De
ver você me ouvindo, com profundo
Prazer
em ter pra mim essa menina.
Soneto
23
venha
me beijar doce vampira
à
luz do luar ou do sol ou do abajur
eu
mentalizo pra você venha
e
você ouve a minha voz amorosa
na
sua mente brilhosa
radiosa
como a criação de um verso
ou
de megassupercosmos num grão
assim
é o desejo
assim
é a paixão
assim
é o amor
também
garota,
se eu falei vampira, é porque piro
quando
penso na nossa alegria-flor
que
aquece a luz do sim do sol do amor
Como
se já não fosse dose
Tanto
combate ao poeta e pensador
Original
que nasceu aqui e é barrado,
Porque
não querem escrita à vera no país,
Ainda
tem a criptonita
Que
é algo assim de várias coisas
E
cores magníficas como se fosse
A
fase da cauda do pavão
Aquela
que vem depois de tanto esforço
E
recompensa nosso denodo, antes
Da
Pedra Filosofal.
Mas
a criptonita é bonita e muito esperta
Me
deixa assim na cama e carma, o que fazer?
Você
já sabe, estou falando de você
Soneto
25
Desde
o início eu registrei e assimilei seu não
O
impossível é um hábito nesse filme que faço
Mas
ver seu rosto ouvir sua voz falar contigo
É
como uma lenda uma história mitológica de amor
Então
eu continuo puxando conversa com você
Como
se fosse uma amiga uma senhora um bebê
Uma
menina e uma moça que conheci na festa
E
essa festa dura a vida inteira
Mesmo
que você não venha ser feliz
No
beijo de vulcão e de doce de leite
Que
eu guardo na minha boca pra você
Ainda
que você nem saiba que pra ser feliz
A
gente precisa confiar no outro e mais na gente
E
mais ainda nas coisas boas e legais que a gente sente
Soneto 26
Se
comover de verdade, moça
Você
vai saber o que é
Quando
confiar um pouco em mim
E
deixar eu pegar na sua mão
Enquanto
andamos pela praia
Assim
como quem não quer nada
Enquanto
comemos coquetel de camarão
E
bebemos chá de hortelã musse de limão
Eu
visualizo coisas simples com você
Porque
quando eu imagino um abraço apertado
Pela
noite sem fim do meu querer
Aí
eu entro em outra dimensão
Uma
dimensão em que as coisas valem mais
E
sua boca procura pela minha com vontade
Soneto
27
Droga
que coisa eu sou um homem adulto
Por
que essa coisa de bebê na fase oral
Você
fala comigo pronto: tchan!!
Mais
uma noite sem dormir pensando
Em
você, rolando nossas falas como pedras
Na
boca de um demóstenes do amor
Que
eu não sou, eu sou o puro amor,
Eu
sou amor quando o assunto é você
Olhando
de novo e de novo as suas fotos
Num
moto perpétuo que talvez seja desejo
Talvez
seja paixão talvez o beijo e a mão
Que
quero tanto dar pra você, ou talvez
Seja
o amor, mas me diga, moça linda que me invade,
Se
for amor isso que sinto, como vamos saber?
Soneto
28
pra
que serve a arte uma sensação
surpresa
boa depois acostuma
pra
que serve o amor
ou
melhor
como
o amor se arruma
nessa
coisa toda??
eu
não sei meu bem
mas
o que eu não sei não chega aos pés
dos
beijos que se geram nos meus lábios
quando
penso na sua boca
e
nos seus pés
mas
o prazer incerto
vive
igual um inseto
por
dentro do verso
Soneto
29
A
força que me faz ficar sonhando
Acordado,
na noite, com você,
É
a mesma que nos vem à mente, quando
Amamos
o que se ouve, o que se vê;
Seja
esse item árduo, ou terno e brando,
Aquilo
que cativa no seu ser
É
a pura luz do amor, que está chamando:
Assim
você me chama, sem querer.
No
entanto, a chama nítida que sinto
Nos
seus lábios, seus olhos, sua mente,
Talvez
seja hidromel, talvez absinto.
Como
saber? O nosso beijo é urgente,
E
eu ando, percorrendo o labirinto
Do
seu coração lindo, sua semente.
Soneto
30
Por
que você fez assim comigo?
Você
quis me entristecer...
Mostrou-me
as suas pernas de veludo e o doce abrigo
Do
seu ser,
Pra
eu pensar que era meu o seu umbigo,
Pra
eu querer olhar você e aí crescer
O
meu amor, que é um sinal vermelho de perigo
E
é tudo que pode no planeta alvorecer.
E
então você me deu seu choro e riu comigo
E
eu lambi as suas lágrimas e quis ninar você;
Mas
depois você me disse: “Meu amigo,
Eu
jamais pensaria em te querer.”
E
eu fiquei furioso ali na esquina... e agora não consigo
Deixar
de amar a sua fonte inebriante de prazer!
Soneto
31
Você
inteira, sem censura, séria
E
ao mesmo tempo ávida bacante
Seus
seios, minhas mãos, a noite inteira,
Sereia
e marinheiro, amada e amante
Eu
quero tudo que você quiser
Me
dar, cada suspiro, cada afago,
No
mar da sua boca mergulhar,
Sentindo
o fogo doce dos seus lábios
Na
minha língua o sal do seu prazer,
Na
minha mão a flor que desabrocha
A
pele se arrepia e você quer
Eu
sei que quer, porque quem ama gosta
De
ficar perto assim, homem e mulher,
A
se deliciar, a noite a fora
Soneto
32
Do
núcleo do meu ser nasce o desejo
Que
confesso a você, e é furacão
E
ao mesmo tempo brisa amena. Vejo,
Em
tudo que você faz, a atenção
Que
Eros dedica ao nosso estranho sim,
Com
seu jeito infantil, e soberano.
Olha
o menino rei, fala pra mim
Se
é justo seu desdém, seu desengano,
Diante
da beleza desse encontro.
Do
que eu estou falando, me pergunta
Você;
sem compreender por que persigo
Esse
afeto sutil, controvertido.
E
a sua indagação vem sempre junta
Ao
desejo que sinto, que sentimos.
Soneto
33
Nas
tantas horas que passamos juntos
Eu
vi o tempo desdobrar-se inteiro,
Qual
se a flecha se tornasse uma esfera,
Ou
virasse várias setas em uma
E
apontasse pra direções complexas
Que
englobam o que eu sou serei e fui,
Como
um rio que flua pro futuro
Mas
tal futuro é mítico e poético,
Fractal
futuro múltiplo e diverso,
Do
qual todo passado é só um ponto,
Pois,
tudo que sabemos sendo um conto
Da
infinda biblioteca do universo,
Que
eu vi no seu olhar naquele instante
Que
te fez minha, eterna, amada, amante.
Soneto
34
Mas,
como sempre dura, é infinito
Este
amor, que é eterna duração.
Ele
me faz ficar insone e aflito,
E,
mesmo assim, lhe dou sempre razão.
Porque
é amor e é meu e é bonito
E
é mais potente do que o sim e o não
E
está no meu silêncio e no meu grito
E
mora dentro do meu coração.
E
então só fico atento ao meu amor;
Por
isso nada importa, e eu só recordo
De
pensar nela, seja como for.
Desde
a hora em que durmo, e quando acordo,
Os
seus olhos me olham com uma cor
Que
eu só vi nos seus olhos, e que adoro.
Soneto
35
Seu
amor ilumina minha lida
De
uma forma que eu nunca imaginei
Que
fosse acontecer e agora eu sei
O
que é o amor que dura toda a vida
E
o que é o homem sentir-se como um rei
E
ter na realidade amanhecida
A
máxima alegria que era tida
Como
um prazer restrito ao que sonhei
Tudo
é real e mais nada é igual
Ao
que era antes da realização
Desse
lindo desejo de menino
Que
sabe ser feliz o seu destino
E
sente o paraíso à sua mão
E
vibra com este amor transtemporal
Soneto
36
Um
soneto
É
um som
No
meio
Do
caos
Do
barulho
Da
cidade
E
da mente
Dos
normais
Um
poema
Que
fala
O
fora
Traz
pra perto
O
universo
Agora
Soneto 37
The nightingale calls the lark
And I see and hear Doris Day
Chanting in the classical movie
“The man who knew too much”:
“Today you're crazier than you use to”
I hearken you say, but I think: “No way!’
I remain wanting to chat with you
Holding you tight, I always want you
Must I wake up now, or should I dream?
Is it the light of dawn, or still dark stream?
Is it only the nightingale we listen
Who keeps moon and sun apart?
Or is it the lark, the herald of the morn,
Who sings in my eyes and in my heart?
Soneto
38
Soneto
do Amor total
O
amor é fogo que arde e que se vê,
Anima
tudo e faz o mundo inteiro.
Aparece
na forma de um bebê,
Depois
cresce, se apaixona e fica arteiro.
O
meu amor por você é infinito:
É
um mundo onde eu entrei quando te vi;
No
qual quero morar, pra ser bendito
E
super prazeroso estar aqui.
Meu
amor por você é minha vida.
Foi
assim, desde que te conheci.
Toda
e cada hora agora é mais sentida,
Me
aproxima do amor que sinto em ti.
E
é imortal, posto que sempre dura,
Pois
vem pra nós da chama eterna e pura.
Soneto
39
Revoluções
Este poema se chama Games, porque fala das formas
Como os seres humanos entretecem relações familiares,
Sociais e de trabalho, nunca se atendo às normas
Totalmente, mas, parcialmente, sim – e esse é o jogo.
O qual é falseado, quero dizer, tem vários níveis de performance;
E mesmo o apocalipse programático que o mundo experimenta
É um megajogo: por exemplo, como pode uma coisa ser
Inteligência, se é artificial? Como pode ser experimento
A tal jogada louca, na qual o mesmo povo é o objeto
E o sujeito? O cientista e o projeto? O domador e o leão?
Tal peleja parece nazista, mesmo até quando é feita
Por pessoas comuns, de bom senso, com a melhor das intenções.
Aqui entram mais dois versos, para poder ser um soneto,
Este texto que escrevo, e que quer produzir a colheita de neossoluções.
Oito
sonetos de Shakespeare traduzidos por mim:
Sonnet
7
Vê!
No Oriente, quando a luz graciosa
Ergue
a cabeça em chamas, cada olhar
Curva-se
à ígnea visão, que é sacra e nova,
Louvando-lhe
a realeza, a admirar;
Subindo
a íngreme e celestial colina,
Parece
forte e jovem, e é madura;
E,
ao mesmo tempo, a admiração perdura,
Enquanto
ela, dourada, peregrina:
Mas,
quando em alto tom, carro gemente,
Como
se fosse idosa, se retira,
Olhos
antes fieis, já se desviam,
Não
querem mais mirar o céu poente;
Também
tu, ao decair teu apogeu,
Serás,
se não tiveres filho teu.
Sonnet 8
Se
a música é pra ouvir, então... por que a ouves triste?
Doces
não se combatem, e a alegria se deleita com a alegria.
Por
que tu amas aquilo que te desagrada,
Ou
então recebes com prazer o que só te aborrece?
Se
os sons harmônicos, no mesmo tom afinados
E
bem unidos, ofendem teus ouvidos,
Docemente
eles te repreendem, pois confundes (captas)
Como
partes discretas o que em conjunto tu suportarias.
Repara
como as cordas, casadas, cônjuge uma da outra,
Se
tocam e vibram juntas, em uma grande harmonia,
Como
se fossem pai e filho e mãe felizes,
Tocando
em uníssono a agradável melodia:
Cuja
música sem letra fala mais que as palavras,
Cantando
para ti, que: “Tu, sozinho, nada provas”.
Sonnet
20
Face fêmea tens
tu, pela Natura feita
Pintura,
senhor/dama da minha paixão;
Coração brando
de mulher, mas não afeita
À inconstância
vã, feminina afetação:
Olhos que
brilham mais que os delas, sem mentir,
Tornando em ouro
cada coisa que quiseres;
Controlas dons e
tons, tens másculo matiz,
Dos varões
roubas o olhar, e a alma das mulheres.
E para ser
mulher é que tu foste criada;
A própria Natura
te amou ao te forjar,
Eu fui junto
também, não pude fazer nada,
E o que ela quer
eu quis, sem nada acrescentar.
Se pro prazer da
mulher foi que ela te criou,
O meu é o teu
amor; seu tesouro é te amar.
Sonnet 21
Então,
não, não se dá comigo como com aquela
Musa
que se autoinspira em fazer verso-beleza,
Pra
quem o próprio céu é só mais um enfeite
E
o bem mera expressão do quão bem se apresenta,
Se
apresentando em pares na comparação vaidosa
Com
o sol e a lua, e as preciosas joias da terra e do mar,
Com
as primeiras flores da primavera, e com todas as coisas
Raras
que o ar celeste em sua enorme abóbada abarca.
Oh!
Permita-se ser verdadeiro no amor e na poesia,
E
então confia em mim, o meu amor é tão puro,
Como
da mãe com seu filho, mesmo sem ter tanto brilho
Quantas
as velas de ouro fixadas no ar celestial.
Deixe
meus versos falarem mais do se pode entender;
Não
faço comercial do que não posso oferecer.
Sonnet 33
Muitas
manhãs gloriosas eu já vi
Cobrindo
os montes com soberbo olhar,
Áurea
face a beijar verde capim,
Alquimia
divina a transmutar
N’ouro
rios sem cor; sem permitir
No
firmamento nuvem baixo astral,
Nem
deserdando o mundo a se esvair,
Rosto
que vai pro rastro ocidental:
De
um modo igual meu sol brilhou pra mim,
Triunfo
esplendoroso em minha testa;
Porém,
uma hora só, depois eu vi,
A
nuvem que o escondeu, muito depressa.
Mas
nem por isso o amor que sinto encerra;
Se
foge o sol do céu, fá-lo os da terra.
Soneto
91
A
glória parcial de um nascimento,
Da
perícia, riqueza ou corpo forte,
As
roupas mais cotadas do momento,
Galgos,
falcões, cavalos de alto porte,
Podem
ser todo o encanto de uma vida
P’ra
alguém que aí empenhe o seu cuidado;
Porém,
não podem ser minha medida;
Algo
melhor que tudo hei encontrado.
O
teu amor p’ra mim é muito mais
Que
um nascimento nobre, ou que o dinheiro,
Mais
deleitoso que esportes frugais;
E
tendo a ti, me gabo prazenteiro
Infeliz
nisso só, que poderias,
Levar
tudo e deixar-me as mãos vazias.
Soneto
145
Os
lábios feitos por Amor, os dela,
Soaram
o som que disse assim: “Odeio”,
E
eu desfaleci à voz aquela...
Mas
imediatamente o perdão veio
Quando
ela viu meu infeliz estado,
Censurou
sua língua, que, sempre branda,
Gentil
decreto então me fez ser dado;
E
arremedou sua frase nefanda;
“Odeio”,
ela alterou com um complemento,
Que
a seguiu, como segue o dia terno
À
noite, que tal qual demo agourento,
Do
céu desprende e retorna ao inferno;
“Odeio”,
com ódio ela falou, e aí...
Salvou-me
a vida, ao dizer: “não a ti”.
Soneto 154
Eros,
o Deus do Amor, menino, adormeceu,
Largando
ao lado a flecha inflama-corações;
Vieram
as ninfas virgens, vendo ali o sono seu,
E
uma pegou o dardo-chama, que legiões
Fez
ficarem amorosos e sinceros.
E
assim dormindo foi o General do Quente
Desejo
desarmado. Ela, a seta, então, de Eros,
Mergulhou
na nascente, e a frecha a fez ardente,
Encheu
de fogo a fonte, e, ao invés de se apagar,
Criou
balsâmica água ígnea, que serve de cura
Pra
todos que sofrem da loucura de amar.
Servo
de minha Dama, lá fui, à procura
Do
universal remédio, e fiquei sabedor:
O
fogo esquenta a água, a água não esfria o Amor.
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